Uber movimenta aluguel de carros, mostra reportagem de O Globo

27 de março de 2018 Notícias 0

RIO – “Alugo carro para Uber”. Em um grupo no Facebook que reúne mais de 20 mil motoristas da plataforma, esse tipo de anúncio é publicado quase diariamente. A frequência de postagens dá a dimensão do tamanho de um mercado que se formou em torno do fenômeno de aplicativos de transportes: o de locação de automóveis para os parceiros das plataformas. O filão deu fôlego para o nascimento de negócios criados só para atender esse público. São pequenas empresas ou até pessoas físicas, que disputam espaço com gigantes do setor, como Localiza, Movida e Unidas, que também incluem em suas estratégias o serviço voltado para esse segmento, com parcerias com as empresas de aplicativo.

Não faltam clientes. Só a Uber tem 500 mil motoristas rodando no país, segundo dados mais recentes divulgados pela empresa. O número pode ser ainda maior, já que 99 e Cabify — as outras duas maiores plataformas — têm, respectivamente, 300 mil e 200 mil parceiros. Não é possível ter um número preciso, porque há profissionais que trabalham com mais de um aplicativo.

A ideia de quem aposta no mercado de aluguel é oferecer uma opção mais acessível para quem quer começar a trabalhar. O empresário Luiz Eduardo Nunes, dono da locadora LRF, no Rio, percebeu essa oportunidade. Depois de ser demitido de um banco onde trabalhou por 15 anos, pegou parte do dinheiro da indenização e comprou um carro para dirigir. Pouco tempo depois, decidiu anunciar o aluguel do carro em um site de classificados on-line. No ano seguinte, uniu-se a dois amigos, investiu R$ 550 mil e abriu a empresa em 2016. O negócio funciona em uma oficina mecânica no Centro, com a qual a locadora fez uma parceria. Hoje, a empresa tem 18 carros disponíveis, mas ainda não dá lucro.

— Fiquei uma semana dirigindo e percebi que não era para mim. Mas vi pessoas se encontrando em postos e percebi que existia esse mercado de aluguel. Tomei muita volta no começo porque não tinha estrutura nenhuma. Meus amigos entraram com o dinheiro e hoje temos o negócio — conta Nunes, que diz ter uma fila de cem clientes no sistema, mas não consegue cumprir a demanda.

Em São Paulo, a PPCar tem proposta semelhante. A empresa criada em maio de 2016 é só para motoristas de aplicativos. Segundo Alexandre Ribeiro, fundador e diretor-executivo, a companhia tem crescido 5% por semana. O porte do negócio já é maior que o dos três amigos cariocas. A meta é ter, até o fim do ano, uma frota de 5 mil veículos.

— Há uma grande quantidade de desempregados com necessidade de ter uma renda. Usuários concluíram que fazer a assinatura de um veículo, conceito da PPCAR, é mais vantajoso do que ter carro próprio. A demanda cresce a cada dia.

As duas empresas têm em comum diferenciais em relação a grandes locadoras, feitos sob medida para o público-alvo. Não há consulta a SPC e Serasa, os pagamentos são semanais (coincidindo com a remuneração dos aplicativos) e não há necessidade de ter cartão de crédito. Os preços variam. Na LRF, há a cobrança de caução de R$ 600 na primeira semana, seguida de pagamentos semanais de R$ 500 a R$ 650. Na PPCar, a cobrança de caução é de R$ 1 mil, e a locação semanal vai de R$ 459 a R$ 599.

VENDA DE CARROS PARA EMPRESAS SOBE A 32%

Não há números que mostrem o crescimento do setor, mas há algumas pistas. Segundo dados da Fenabrave, entidade que representa as concessionárias, o percentual de vendas de automóveis feitas diretamente a empresas — os frotistas — vem subindo nos últimos anos. Era de 22,93% em fevereiro de 2016, saltou para 32,52% em fevereiro deste ano. Dados de 2016 da Associação Brasileira de Locadoras de Automóveis (Abla) mostram que 19% das locações no país naquele ano foram para o segmento de “outros nichos de transporte”. Paulo Miguel Júnior, presidente da entidade, confirma que existe um movimento que busca atender o mercado de aplicativos.

— Novas empresas surgiram especificamente para isso. É um segmento que utiliza muito o carro, então precisa de uma administração diferenciada na gestão de manutenção, controle de multas etc. São veículos que muitas vezes rodam o dia inteiro — afirma, lembrando que há incertezas ainda em relação à regulamentação do serviço em São Paulo, que exige que a placa do carro seja da cidade.

Os pequenos negócios se juntam às grandes locadoras, que também veem os aplicativos como parte de suas estratégias. A frota da Localiza, que comprou a Hertz, cresceu 35,4% na comparação com o ano anterior. Desde 2016, a empresa e outras como Movida e Unidas têm parcerias com aplicativos para oferecer descontos a parceiros. Bruno Lasansky, diretor da divisão de aluguel de carros da Localiza Hertz, explica que, ao atender esse público, a empresa, que tem 194 mil veículos, ganha duas vezes, já que parte deles se torna cliente de outros segmentos, como em férias:

— Os aplicativos são mais um vetor do crescimento da companhia. Como nosso foco é de inovação e encantamento, nosso cliente é o motorista.

Quem usa o serviço conta que vê como principais vantagens o preço e a possibilidade de ter um carro de maior qualidade do que poderia comprar. Lucimar Weissmann, de 48 anos, roda na Cabify há dois anos com um Sandero alugado. Paga R$ 550 por semana.

— Hoje, não poderia pegar um carro zero. Peguei esse carro com apenas cem quilômetros e agora está com 32 mil. Cria uma visibilidade com o passageiro — afirmou Lucimar.

Daniel Teixeira, de 37 anos, largou o negócio de acessórios para cachorro para se dedicar à carreira de motorista. Lucra de R$ 6 mil a R$ 7 mil atuando nas duas pontas. Tem dois carros, que aluga para outros motoristas. Com o dinheiro, aluga outro modelo para trabalhar:

— Em vez de ter meu próprio carro desse nível, prefiro ter um Classic que alugo por R$ 500 e alugo o deles por R$ 600.

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