Confiança cresce no início do ano, mas sinais da economia real ainda são fracos

6 de fevereiro de 2017 Principal 0

Empresários e consumidores começaram o ano mais confiantes após a queda da inflação e a redução dos juros, mas os sinais na economia real são fracos. Com poucos dados divulgados para janeiro, a percepção de empresários e economistas é que a forte alta da produção industrial observada em dezembro – de 2,3% ante novembro, feitos os ajustes sazonais – não deve se repetir no primeiro mês de 2017, sazonalmente mais morno para a atividade econômica.

Os índices de confiança mostraram melhora de humor na abertura do ano, cuja continuidade nos próximos meses, no entanto, ainda é uma incógnita. Calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), o Índice de Confiança Empresarial (ICE) – que agrega os setores de serviços, indústria, construção civil e comércio – subiu 3,8 pontos entre dezembro e janeiro, para 82,3 pontos.

Na mesma comparação, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) subiu de 73,1 pontos para 79,3 pontos – maior alta desde janeiro de 2006, quando também havia avançado 6,2 pontos. Ambos os índices ainda estão em terreno pessimista, mas registraram avaliação mais favorável sobre o momento presente, e não somente das expectativas. Apesar da visão menos negativa sobre situação atual, os poucos dados da economia já conhecidos para o começo do ano não são tão animadores.

O licenciamento de veículos (automóveis, comerciais leves, motocicletas, caminhões e ônibus) medido pela Fenabrave, entidade que reúne as concessionárias, recuou 3,2% de dezembro para janeiro, segundo cálculos dessazonalizados pela MCM Consultores.

O desempenho acende uma luz amarela, uma vez que a reação da atividade industrial em dezembro foi impulsionada principalmente pela indústria automobilística. Ainda do lado do comércio, o movimento nas lojas da cidade de São Paulo caiu 5% em janeiro sobre igual mês de 2016, com retração de 3,8% e 6,2% nas compras a prazo e à vista, respectivamente. Os números são da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). “Vamos começar a ter um crescimento muito lento e modesto no começo do segundo semestre”, diz Marcel Solimeo, economista-chefe da entidade.

Para o primeiro trimestre, a perspectiva ainda é de retração. Após as vendas fracas de fim de ano, o excesso de mercadorias paradas no varejo da capital paulista persistiu, de acordo com a FecomercioSP. Mesmo com as promoções, o indicador de adequação de estoques caiu para 90,8 pontos em janeiro, ante 106,1 pontos em dezembro. Na produção, ainda não há indicadores antecedentes conhecidos para janeiro, com exceção da confiança no setor e do Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci). Também estimado pela FGV, o Nuci avançou de 72,9% para 74,6% na passagem mensal, ainda distante da média histórica (79,1%).

Para Aloisio Campelo, superintendente de estatísticas públicas do Ibre-FGV, o corte dos juros em ritmo mais acelerado surtiu impacto sobre a confiança, mas ainda é cedo para concluir que a reação observada em janeiro vai se repetir nos meses seguintes. Com a herança estatística positiva deixada em dezembro, é bastante provável que a indústria cresça no primeiro trimestre, avalia, mas as incertezas no cenário em meio ao ambiente político conturbado não garantem que a trajetória positiva vai continuar no segundo trimestre. Assim, não é possível afirmar que a economia já saiu da recessão. Embora trabalhe com expansão de 0,9% para o Produto Interno Bruto (PIB) – acima do consenso de mercado, de 0,5% – o economista-chefe do Banco Ribeirão Preto, Nelson Rocha, acredita que a atividade vai permanecer em campo negativo no primeiro trimestre. “A flexibilização da política monetária ainda vai demorar a surtir efeito, o desemprego está gigantesco e o nível de estoques no comércio ainda é elevado.”

A alta da confiança é um sinal positivo, mas insuficiente para levantar o nível de atividade, comenta Rocha. Isso porque, em dezembro, o aumento da produção foi resultado principalmente da indústria automobilística, que, com estoques altos, exportou um volume importante no mês. No critério da média diária, a venda externa de automóveis de passageiro subiu 34,5% em janeiro contra igual mês de 2016, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic).

Os fabricantes de calçados também exportaram mais. Segundo dados preliminares do Mdic divulgados pela Abicalçados ao Valor, foram embarcados 11,37 milhões de pares em janeiro, queda de 0,6% sobre igual mês de 2016. Em valor, porém, os US$ 81,4 milhões são 17,5% maiores na mesma comparação. Mesmo assim, Heitor Klein, presidente da associação das empresas do setor, afirma que a produção deve ter ficado estável no período.

O primeiro mês do ano é marcado por demanda fraca do varejo, diz Klein. “O primeiro trimestre deve seguir esse parâmetro. Não acredito que o mercado doméstico apresente recuperação e as exportações devem seguir na mesma intensidade”, prevê. Na avaliação de Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), os sinais de janeiro são “contraditórios”, apesar do cenário um pouco mais favorável para a atividade. “Algumas empresas acharam que janeiro não foi nenhuma maravilha, mas foi melhor que o esperado, levando em conta que as vendas do Natal não foram bem.” É possível que a produção do setor têxtil e de confecção tenha expansão no primeiro trimestre em relação a igual período de 2016, afirma, mas o crescimento tende a ser pequeno, porque a economia ainda conta com poucos “motores de arranque”.

No Polo Industrial de Manaus, o início de ano foi fraco, relata Wilson Périco, presidente do Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (Cieam). “As indústrias estão estocadas e o varejo também”, afirma. “As pessoas perderam poder de compra e só consomem itens de primeira necessidade, que não produzimos aqui.”

Fonte: Valor – Arícia Martins | De São Paulo

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