Atacarejo: Perfil do cliente e concorrência facilitam expansão no Nordeste

6 de fevereiro de 2017 Notícias 0

São Paulo – Com um consumidor mais sensível a preços, um custo de ocupação menor e uma concorrência mais fraca – em comparação a outras regiões do Brasil -, o Norte e o Nordeste têm se tornado importantes polos de expansão para o atacarejo. Neste ano, redes como o Assaí, do Grupo Pão de Açúcar (GPA) e Atacadão, do Carrefour, devem se concentrar ainda mais nesses mercados.

De acordo com um estudo da Nielsen, realizado em parceria com a Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviço (Abaas), a região Nordeste foi destaque no ano passado em termos de crescimento do setor. Em número de lojas, houve alta de 16% na região – 6 pontos percentuais acima da segunda colocada (veja no gráfico).

“Como essas operações [atacarejo] estão muito relacionadas com a sensibilidade orçamentária, regiões onde a renda da população é menor apresentam um potencial muito grande para a expansão do formato”, afirma o presidente do Instituto Brasileiro de Executivos do Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar), Claudio Felisoni.

De acordo com ele, ambas as regiões possuem uma renda média inferior ao restante do Brasil, o que contribui para a aceitação desse modelo de negócio. “Acredito que por essa razão, essencialmente, as redes de atacarejo estão direcionando seus esforços na ocupação desses espaços geográficos”, diz.

O sócio-presidente da consultoria de varejo ba}Stockler, Luis Henrique Stockler, também acredita que seja esse o principal fator que justifica o investimento das redes de cash&carry. “Se olharmos a distribuição de renda, o Norte e Nordeste são regiões com um percentual maior de pessoas da classe C, D e E. A concentração de renda é superior nesses locais e, portanto, a população está mais sujeita ao aumento do desemprego e a queda da renda com a recessão. Todos esses fatores somados acentuam a necessidade do consumidor de buscar fontes de oferta de produtos que sejam mais baratas”, explica.

A rede de atacarejo Assaí, do GPA, tem sentido na prática essa maior propensão do consumidor. “O modelo é muito aceito nessas regiões, tanto pelo pequeno comerciante, quanto pelo transformador e pelo consumidor final. Se pegarmos o histórico dos últimos cinco anos, o formato foi aceito mais rapidamente no Nordeste do que em outras regiões do Brasil”, afirma o diretor comercial da empresa, Wlamir dos Anjos.

Essa realidade tem se refletido no investimento da rede, que nos últimos anos foi muito focado no Nordeste. “Das 13 lojas que abrimos no ano passado, cinco foram no Nordeste e duas no Norte. Desde 2012, cerca de 45% das aberturas foram nessas duas regiões”, diz dos Anjos.

Outro movimento sentido pela rede foi o aumento significativo do consumidor final. “Nos últimos dois anos temos visto o crescimento desse público. É um movimento que ocorre no Brasil todo, mas que é ainda mais acentuado no Nordeste”, ressalta.

Para este ano, ele afirma que a perspectiva é seguir com um foco importante nesses dois mercados. “A ideia é continuar abrindo lojas nessas regiões, e temos estudado também a possibilidade de abrir um centro de distribuição (CD) na Bahia, apesar de ainda não termos nada concreto nesse sentido”, diz. Atualmente, a empresa já possui dois CDs no Nordeste, um em Fortaleza (CE) e outro na grande Recife (PE).

O Atacadão, do Carrefour, também tem dado uma importância significativa para o Nordeste em seu plano de expansão. No ano passado, por exemplo, das 12 inaugurações realizadas pela empresa, duas foram na região. Por meio de nota, a varejista afirmou que “o Nordeste é um dos principais mercados de atuação para o Atacadão e concentra 43 das 156 operações no Brasil.”

Custos e concorrência

Outro aspecto que favorece a expansão para essas localidades, na visão de Felisoni, do Ibevar, é que os custos de ocupação e operação são menores, se comparado com a região Sudeste. “Se a renda é mais baixa todos os preços relativos se estabelecem em um patamar mais baixo. Sendo assim, a ocupação do espaço físico por metro quadrado é menor, o custo com mão de obra é inferior e as outras despesas complementares também se dão em um patamar correspondente”, afirma.

De acordo com ele, o custo menor pode contribuir para uma maior rentabilidade da operação, mas essa diferença em geral não é muito grande, já que os preços dos produtos também precisam ser inferiores. “Em uma região com renda menor é preciso praticar preços mais baixos. O aumento da rentabilidade vai depender dos processos de negociação, mas, de modo geral, as diferenças de rentabilidade não devem ser tão grades entre uma operação no Norte e Nordeste e uma no Sudeste”, explica o especialista.

Um ponto que de fato pesa na balança, no entanto, é a concorrência, que é inferior nessas duas regiões. “A competição é muito mais acirrada no Sudeste, já que esse tipo de operação é mais capilarizada nesse mercado. No Nordeste e Norte tem algumas redes locais, mas a penetração é bem menor”, afirma Stockler, da ba}Stockler.

De acordo com dos Anjos, do Assaí, de fato há uma mudança na concorrência. “Ao invés de competirmos com um player com atuação nacional, concorremos com players locais – que realmente são menores, mas que operam muito bem”, diz.

Na visão de Felisoni, outro aspecto que influência esse movimento de busca pelos mercados do Norte e Nordeste é uma saturação do Sudeste. “Há uma pluralidade grande de operações no Sudeste e o esforço de expandir na região muitas vezes acaba penalizando a rentabilidade da empresa, já que se começa a colocar lojas que se sobrepõem”, finaliza. Em outras palavras, como os espaços estão muito ocupados é preciso colocar unidades em locais próximos, e que acabam competindo pelo mesmo consumidor.

Pedro Arbex

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